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Fabian Cancellara e seu motor!

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Em tempos de tecnologia temos a cada mês novidades que vem contribuindo para melhorar as performances dos atletas e suas bicicletas.

Equipamentos que fazem a diferença por seu funcionamento rodas mais rígidas e leves, trocas de machas rápidas e precisas, capacetes aerodinâmicos para melhor penetração no vento, quadros mais leves e resistentes. Novidades que contribuem para melhor as performances respeitando as regras pré estabelecidas pela UCI. Percebe-se claramente a grande diferença quando confrontadas com as peças tradicionais e mais econômicas.

A ultima grande novidade veio para revolucionar geral e abalou todo o mundo esportivo: Trata-se da invenção do tal motor elétrico que vai escondido dentro do quadro da bicicleta, ele entra em ação no momento em que o atleta considera ser mais oportuno e apertando um botão, ativa seu funcionamento. O resultado é uma grande progressão no giro dos pedais oferecendo enorme vantagem ao atleta que pedala uma bicicleta equipada com esse motor.

O escândalo dessa invenção gira toda em volta do atual campeão do mundo de contra relógio, o suíço Fabian Cancellara. O ciclista venceu na mesma semana as duas maiores clássicas da Bélgica, as famosas Flanders e Paris Roubaix, onde de forma muito superior deixou todos seus adversários para trás nos últimos quilômetros. Atletas como Tom Boonem e Thor Hushov sobraram de roda sem forças para reagir a grande potência de Cancelara.

Particularmente acho chocante, um enorme absurdo para qualquer seguidor, atleta ou apaixonado pelo esporte puro. Se essa suspeita contra Cancellara fosse provada, uma mancha negra cairia sobre um dos maiores campeões de todos os tempos.

Analisando outra face da história, tenho dezenas de coisa positivas para falar sobre Fabian. Corremos juntos muitas provas, vi esse cara ganhar títulos importantíssimos e ao longo dos anos aprendi a admirar esse grande ciclista suíço. Além de ter tido a oportunidade de presenciar ao vivo muitas de suas vitórias, também vi por inúmeras vezes seu sofrimento e toda sua capacidade de  planejar uma conquista, suportar e atravessar situações difíceis que trariam benefício no futuro. Presenciei Cancellara gripado e com febre competindo a Tirreno Adriático de 2006, volta de sete etapas regadas sempre de chuva e temperaturas muito baixas. Uma história marcante que vivi de perto. Em situações assim pessoas normais procuram ficar deitadas e fazendo o mínimo de esforço possível. Em minha carreira já passei por situações parecidas e vi alguns outros casos de atletas gripados no pelotão, mas nenhum marcou tanto quanto ao Cancellara da Tirreno 2006. O atleta tremia em cima da bicicleta, não falava direito em função da gripe, nariz congestionado, terminava as etapas sempre sobrado e levava muitos minutos do pelotão, chegando a maior parte das vezes sozinho e desfigurado.

Dentro das equipes todos apostávamos que ele não largaria no dia seguinte. Passaram-se etapas de 180 km, 200 km, 220 km com chuva fria e la estava o Cancelara na largada da manhã seguinte. Assim seguiu-se adiante até a última etapa que era plana e ele terminou junto com o pelotão.
Na terceira etapa me lembro claramente de ter perguntado a ele se estava ficando maluco correr daquela maneira e chegar todo dia sobrado, me respondeu que estava sendo muito duro competir naquela condição, mas que ele não poderia perder a oportunidade de usar a Tirreno Adriático como treinamento para as próximas competições, acrescentou que todo aquele sacrifício poderia valer a pena se ele conseguisse se recuperar durante a semana seguinte. Aquilo ficou na minha cabeça e dia após dia fui prestando atenção na grande determinação daquele atleta. E não é que o cara terminou a prova já quase bom da gripe!
Três semanas depois o mundo inteiro pôde acompanhar pela televisão a grandíssima vitória de Fabian Cancelara escapado nos ultimos quilometros da Paris Roubaix, a mais dura de todas as clássicas.

Fiquei impressionado com aquele fato e vou me lembrar pro resto da vida em que situações vi o Fabian competir e que determinação em condições tão adversas a cada dia de prova.
Por isso acho terrível se essa estória do motor elétrico 2010 fosse comprovada, mancharia o brilho das dezenas de vitórias magníficas feitas por um dos maiores ciclistas de todos os tempos, com motor ou sem motor aprendi a admirar e espelhar alguns dos meus momentos de dificudades no grandioso Fabian Cancelara.

 

Por: Luciano Pagliarini
Coluna: Sprint Final
Imagens: Divulgação